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PROSTITUIÇÃO LEGAL
"Não quero minha profissão
regulamentada
Por Marília Melhado [Sexta-Feira, 6 de Julho de 2007 às 14:35hs]
Há mais de dois anos um projeto de lei tramita na Câmara dos
Deputados e cria polêmica em meio à 'profissão mais antiga do
mundo'. De autoria do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ),
visa regulamentar os serviços de
'natureza sexual', ou seja,
tornar a prostituição uma profissão com carteira assinada.
O objetivo principal da idéia seria reduzir os malefícios
resultantes da marginalidade a que a atividade está relegada.
O projeto baseia-se em experiências
de outros países, como o caso da Holanda e sua famosa rua de
prostituição, The Red Light Street. Lá, garotas devidamente
registradas ficam expostas em vitrines iluminadas por luzes
vermelhas. Quando o cliente escolhe a profissional desejada, uma
cortina dentro da vitrine se fecha e o serviço poderá ser
prestado sem problemas. Mas, nem na Holanda nem aqui no Brasil,
o projeto parece contar com a simpatia daquelas que estão na
luta do dia-a-dia. No país europeu, prostitutas regularizadas
criticam o preço dos impostos, o aumento de seus gastos e
garantem que o preconceito não diminuiu. No Brasil, também há
dissensos.
Jaqueline tem 24 anos, batalha como
profissional do sexo há cinco meses e faz ponto em uma das ruas
mais conhecidas da cidade de São Paulo, a Augusta. Com o
dinheiro ganho na noite, sustenta a filha pequena. 'Nunca
aceitaria ter minha carteira assinada como prostituta. Imagine
só se um dia minha filha descobrir que eu fiz isso? E vou sair
dessa vida logo, logo. Não tem como ficar', assegura.
Próxima ao local, Débora, 22 anos,
que diz ser estudante de Enfermagem, está em sua segunda
experiência como garota de programa. Trabalhou na rua durante um
período, conheceu aquele que viria a ser seu marido e parou com
a prostituição. Agora separada, voltou. Assim como Jaqueline,
Débora diz que jamais teria carteira assinada 'A mulher que
aceitar isso vai ser a pior da rua. Aquela que nunca fica com
ninguém. Vai ter 40 anos e vai ter de continuar nessa vida'.
Esse é um dos nós da questão. A
maioria das garotas encara a ocupação como algo transitório.
Algumas querem criar melhor os filhos com oportunidades que não
tiveram, outras dizem que trabalham para terminar a faculdade ou
comprar uma casa própria. O autor do projeto acredita que, assim
como um taxista, uma prostituta também pode encarar o serviço
como algo provisório. 'Meu projeto não obriga ninguém a se
legalizar. Se quiser, pode continuar na clandestinidade, na
marginalidade', responde Gabeira, aparentemente aborrecido. À
indagação da Fórum sobre se havia feito uma debate amplo com as
profissionais, Gabeira disse tê-lo discutido principalmente com
a ONG Davida, presidida pela ex-prostituta Gabriela Leite.
Talvez até pela ausência de debate,
muitas entidades que estão diretamente envolvidas com o tema
ainda não tenham firmado posição a respeito do projeto. Priscila
Siqueira, articuladora da ONG Serviço à Mulher Marginalizada (SMM),
que luta pelo fim do tráfico de seres humanos para fins de
exploração sexual, avalia: 'Creio que a gente tem que ter os pés
no chão. Não estou dizendo que legalizar é interessante, mas
temos que propor alguma coisa para que as prostitutas se
protejam. Agora, simplesmente ficar na posição ‘sou contra’, não
adianta. Não tem emprego nem para universitário branco, vai ter
ocupação para uma mulher semi-analfabeta e pobre?' Maria do
Socorro Nunes, diretora executiva da mesma SMM, tem visão mais
crítica ao projeto. 'Que garota conseguirá um empregador por 25
anos? E quando ela sair desse emprego, será que vai conseguir
trabalhar registrada em outra profissão?'
Rosarina Sampaio fundou a
Associação de Prostitutas do Ceará (Aproce) e se mostra
indignada com a idéia de regularização. 'Quem vai sair ganhando
são os empresários do sexo. Eles vão ser legalmente donos dos
corpos das meninas.' Ela conta que nenhuma das ONGs do Ceará foi
convidada para fazer parte do debate ou desenvolver o projeto
junto ao deputado Fernando Gabeira 'Eu apóio o projeto se as
meninas apoiarem também, mas não quatro gatos pingados decidindo
por elas.' E acrescenta: 'Não entendi qual vai ser o benefício
desse projeto, porque pagar INSS a gente já pode fazer como
autônomo'. Gabeira rebate dizendo que a regulamentação
assegurará às profissionais assistência médica e previdência
social.
O coordenador da Pastoral de Rua em
São Paulo, padre Julio Lancelotti, compara a legalização da
prostituição com a regularização do trabalho infantil. 'Ambos
são baseados na exploração. Então vamos legalizar também o
trabalho infantil, porque assim eles se aposentarão mais cedo',
ironiza. Padre Julio entende que a regulamentação passa por cima
de outras políticas mais urgentes. 'Primeiro, políticas de
valorização da mulher e educação, para ela conseguir trabalho e
poder desenvolvê-lo com dignidade. Não acredito que esse tipo de
atividade regulamentada vá trazer realização para ela', pontua.
A ex-prostituta Mariana Brasil
trabalhou como garota de programa na Europa e, depois de anos,
conseguiu juntar dinheiro suficiente para deixar de fazer
programas. Hoje, Mariana – pseudônimo adotado naqueles tempos –
é conhecida como autora do livro-biografia O Manuscrito de
Sônia. 'Quero que meu livro mostre justamente o contrário do
‘glamour’ da prostituição, diferente do que a Bruna Surfistinha
escreve.' Mariana atualmente mora na Itália, representa a Rede
de Escritoras Brasileiras (Rebra) e participa de conferências
acerca de direitos da mulher. 'A prostituição agride uma parte
fundamental da dignidade humana e, mesmo quem olha nos meus
olhos e diz que faz porque gosta, acho que mente', diz Mariana.
Aliás, Bruna Surfistinha,
entrevistada por Fórum, pareceu não ter posição firme a respeito
do assunto, mas disse que 'tem amigas que assumem o passado como
garotas e que não sofrem preconceito nos seus atuais empregos'.
A reportagem ouviu muitas outras profissionais, todas com
posição diferente. Elas reclamaram principalmente da rejeição da
sociedade ao trabalho que exercem. E entendem que assumir a
profissão numa carteira de trabalho inviabilizaria uma mudança
de vida."
(Marília Melhado)
http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=485b
Mas a mentalidade contra a
regulamentação existente entre as próprias pessoas da área está
mudando, à medida que está havendo a conscientização sobre os
efeitos da legalização, conforme podemos ver em artigos abaixo,
como APOIO TÉCNICO E
POLÍTICO
Projeto de lei aprovado pelo Ministro da Justiça Thomaz Bastos
fala sobre o pagamento pelos
serviços prestados
Projeto de lei n° 98, de 2003
(Do Sr. Fernando Gabeira)
Dispõe sobre a exigibilidade de pagamento por serviço de
natureza sexual e suprime os arts. 228,
229 e 231 do Código Penal.
"O Congresso Nacional decreta:
Art. 1° É exigível o pagamento pela prestação de serviços de
natureza sexual.
§ 1º O pagamento pela prestação de serviços de natureza sexual
será devido igualmente pelo tempo
em que a pessoa permanecer disponível para tais serviços, quer
tenha sido solicitada a prestá-los
ou não.
§ 2º O pagamento pela prestação de serviços de natureza sexual
somente poderá ser exigido pela
pessoa que os tiver prestado ou que tiver permanecido disponível
para os prestar.
Art. 2° Ficam revogados os artigos 228, 229 e 231 do Código
Penal.
Art. 3º. Esta lei entra em vigor na data da sua publicação."
http://www.guiadasemana.com.br/noticias.asp?ID=15&cd_news=26395&cd_city=1
O caso não é mesmo coisa simples de
resolver; mas, conforme diz o deputado autor do projeto,
ninguém será obrigado a se regulamentar na
profissão. Prostituição não é nenhum crime; todavia,
empregar alguém para a atividade ainda é incriminado.
Transformando-se esse projeto em lei, o tipo será excluído do
Código Penal. Melhor existir a possibilidade de legalização
para quem quiser do que não existir. Pois, embora muitas
estejam nessa área por necessidade, há aquelas pessoas que
gostam do que fazem. Para quem não pretende sair da prática,
seria bem melhor adquirir o status de trabalhador. E, se
tantas pessoas vêem na prostituição uma boa fonte de renda,
nesse mundo caótico onde não há trabalho para todos, e tantas
outras estão dispostas a pagar por isso, por que incriminar a
atividade? Ouve-se muito falar que o que se deve é tirar
as pessoas da marginalidade, mas quem vai dar emprego para todo
mundo? Quem está contribuindo para isso? E não faz sentido comparar a prostituição com o uso
e o tráfico de drogas como muitos fazem.
Drogas destróem a saúde, e sexo faz bem
para saúde.
Ver também em defesa das
prostitutas
Ver também APOIO TÉCNICO E
POLÍTICO
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