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PROSTITUTAS REAGEM CONTRA A REPRESSÃO EM BH
"Comissão de trabalhadoras vai pressionar a prefeitura a não fechar hotéis na Zona Boêmia
Flavio Lenz
22/9/2005 Prostitutas de Belo Horizonte criaram ontem uma comissão para pressionar a prefeitura a manter abertos os hotéis da Zona Boêmia. A decisão foi tomada durante reunião de quase 100 profissionais, que lotaram o auditório do Centro Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais. No início desta semana, a prefeitura notificou os motéis da região a apresentar alvará até terça-feira da semana que vem. Mas o Plano Diretor da cidade não permite o funcionamento, na região central, de hotéis que não fazem registro de hóspedes, caso dos estabelecimentos de programa. Assim, é impossível cumprir a exigência.
A comissão terá representantes de mulheres que batalham em nove dos 23 hotéis da região, inclusive de alguns que foram fechados pela prefeitura sob outras alegações, como Catete e Nova América. Elas querem a reabertura desses hotéis e a liberdade de funcionamento para os outros. As prostitutas dependem dos estabelecimentos para receber os clientes.
Integrantes da Rede Brasileira de Prostitutas participaram da reunião na UFMG. O assessor Roberto Chateaubriand, do Gapa de Minas Gerais, acredita que a comissão será recebida pela prefeitura, que tem promovido ações coordenadas com a Polícia Militar e os bombeiros, na tentativa de reprimir a prostituição. “Eles fazem o discurso da exploração das mulheres, vinculado a um anunciado plano de revitalização. Há duas semanas, uma superblitz da PM revistou 1.500 pessoas, procurando menores e drogas. Não encontrou nenhum menor, achou apenas seis papelotes e ninguém foi detido”.
Chateaubriand denuncia ainda operações dos bombeiros e da Vigilância Sanitária contra estabelecimentos que já cumpriram exigências desses órgãos. Para ele, o maior desafio é o de as mulheres se manterem mobilizadas, mesmo quando não houver uma questão emergencial. “Mas isso está fora da nossa governabilidade de assessoria. Estar sempre alerta para as tantas questões da prostituição depende exclusivamente delas”.
Gabriela Leite, fundadora da Rede, se impressionou com a grande participação de mulheres no encontro, mas também considera que as colegas mineiras precisam fortalecer a manter a organização da categoria. Ela avaliza a eficácia da proposta, tratada na reunião, de recuperar e valorizar a história da zona de BH, que deu origem a duas escolas de samba e tem uma ampla herança cultural e intelectual. Do planejamento fazem parte exposição fotográfica, rodas de samba e de conversa, com sambistas e prostitutas da antiga, e outros eventos.
O projeto é inspirado em ações semelhantes realizadas no Rio pela ONG Davida, dirigida por Gabriela. “Precisamos lembrar aos responsáveis por esses processos de revitalização a importância das populações tradicionais dessas áreas, que fizeram e fazem história. Autoridades e técnicos pensam muito nos imóveis e esquecem das pessoas”.
No Rio, Davida mantém encontros periódicos com o pessoal da revitalização e participa do calendário cultural da Praça Tiradentes, parte do Projeto Monumenta do Ministério da Cultura, com dois eventos: Mulheres Seresteiras, um grupo de prostitutas que “cantam e encantam”, e a peça Cabaré Davida, sobre prevenção de aids e prostituição. Além disso, as prostitutas estão fundando um bloco carnavalesco.
Para Roberto Chateaubriand, a estratégia também renderá frutos em Belo Horizonte. “Os atos culturais de resistência deverão contribuir para a maior apropriação, pelas mulheres, do seu espaço tradicional, e para atrair um outro olhar para a região”.
Ver sobre REGULAMENTAÇÃO LEGAL DA PROSTITUIÇÃO
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